É o REGIME socialista que permite a Cuba ser o único país no mundo em que não há pessoas abandonadas, sem direitos, sem amparo, sem apoio. Em que não há crianças dormindo nas ruas. O único país em que toda a população possui pelo menos nove anos de escolaridade. O primeiro país no mundo que pôde se declarar ''território livre do analfabetismo'', que ajudou a Venezuela na mesma conquista e agora o faz com a Bolívia.
Em que toda a população pode gozar gratuitamente dos serviços da melhor saúde pública do mundo. Cuba tem mais médicos trabalhando gratuitamente em países pobres do que toda a Organização Mundial da Saúde, materializando um dos lemas da revolução cubana: ''A pátria é a humanidade'' (José Martí).
E tudo isso apesar de ser um país sem recursos naturais valorizados no mercado internacional, submetido por séculos a uma economia primário-exportadora, centrada na monocultura do açucar, pela divisão do trabalho imposta primeiro pelos colonizadores, depois pelos imperialistas. Essas conquistas, que tornam Cuba o país menos desigual - e, assim, o mais justo - do mundo, são possíveis pelo caráter socialista de sua sociedade. Uma orientação contraposta às economias de mercado - que produzem conforme a demanda, conforme o poder aquisitivo, via de regra desigual, dos consumidores e das empresas -, em que as necessidades da população comandam a produção.
Cuba não deve mudar de regime porque é o socialismo que lhe possibilita essas conquistas que permitiram que o país enfrentasse a dura crise da desaparição da URSS e esteja agora no caminho da retomada da consolidação do seu desenvolvimento.
Mas Cuba pode mudar aspectos da sua política. Se terminar o bloqueio levado a cabo há mais de 40 anos pelos EUA - a maior potência imperial da história, que cerca de todas as formas a pequena ilha situada a apenas 140Km de seus limites territoriais. Em 47 anos, aconteceram centenas de tentativas de assassinato de Fidel Castro, um intento aberto de invasão, uma busca de cerco naval, ataques de inoculação de vírus em plantações, incêndios em canaviais e outras regiões do país, transmissões ininterruptas de rádio e televisão de canais sediados nos EUA, vôos sistemáticos com aviões supersônicos para fotografar e tentar controlar os movimentos no país - foram algumas das tantas ações de agressão contra Cuba.
O sistema político cubano foi forjado no marco desse cerco criminoso, de mais de quatro décadas, fazendo com que a revolução cubana se desenvolvesse como uma fortaleza assediada pelas agressões do poderoso vizinho do norte. A unificação dos três grupos que protagonizaram a revolução em um partido único surgiu como forma de somar forças, de construir um marco de alianças que dificultasse que os conflitos internos pudessem servir de flanco para a ação inimiga.
Quem se preocupa com soluções para a crise entre EUA e Cuba e suas conseqüências dentro da ilha deveria olhar para Washington, e não para Havana. O governo cubano não coloca nenhuma condição. Não exige sequer a retirada da base de Guantánamo - que há mais de um século os EUA mantêm na ilha, contra a vontade dos cubanos, agora fazendo dela um calabouço para presos políticos ilegais, submetidos a tratamentos selvagens - para a normalização das relações entre os dois países.
Enquanto isso, o governo dos EUA demanda que Cuba se converta em um sistema como o estadunidense para que a normalização das relações seja estabelecida. Exige mudanças justamente naquilo que diferenciou Cuba da República Dominicana ou do Haiti, países caribenhos que, ao ceder ao império vizinho, se encontram entre os mais pobres da região, sem nenhuma das conquistas da ilha.
Cuba pode e deve mudar, se terminar o bloqueio. O papel do Brasil deve ser intermediar para superar essa sobrevivência da Guerra Fria e permitir que ambos convivam de forma pacífica, cada um respeitando as decisões soberanas do outro, sem intervenções nem ameaças. E que o povo cubano, soberanamente, sem bloqueios, decida seu presente e seu futuro. (EMIR SADER, 63, é professor de sociologia da USP e de Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas. É autor de ''A Vingança da História'' (Boitempo), entre outras obras.)
Wadson Calasans - 24/05/2009
sábado, 23 de maio de 2009
terça-feira, 7 de abril de 2009
O Leviatã
Concessão! Esta é a palavra mágica para o nosso tempo histórico atual. Ela significa, num sentido estrito, ação ou efeito de conceder; permissão; autorização. Começamos refletindo sobre esta palavra mágica, a qual foi citada por Silvia – num discurso amoroso sobre a humanidade – na sua reflexão sobre a suposta ‘’crise econômica’’ atual.
Bom, num contexto no qual falar em ideologias é quase que um crime; no qual aprofundar debates sobre os rumos que alguns poucos seres humanos impõem à maioria da humanidade é uma coisa chata; falar de miséria e pobreza é coisa de ‘’comunista de bar’’ - enfim, teríamos muitos exemplos para serem dados -, a palavra concessão, surge, neste contexto atual, para mais uma vez resolver um problema que é crônico à sociedade capitalista: a contradição!
Foi assim na segunda metade do século XIX, mais precisamente a partir de 1870, quando o capitalismo se viu forçado, numa situação-limite, gerada naquela década, a ter de forjar uma guerra no início do século XX, matando conseqüentemente milhões de seres humanos em nome da ‘’expansão e ascensão’’ das nações. Foi assim em 1929, quando mais uma vez, milhões de seres humanos foram reduzidos à meros freqüentadores de lixões. Foi assim também nas décadas de 1970 e 1980, quando as recessões econômicas mais uma vez bateram na porta da sociedade do consumo; e o que aconteceu? Milhões de trabalhadores se transformaram em catadores de papelão, latinhas etc.
Mas as concessões foram feitas! E na brincadeira do ato engraçado (de conceder) dos senhores das indústrias, do capital monopolista, fomos nos acomodando! Mas de tudo isto que até agora foi exposto, uma coisa é certa (pelo menos para nós!): o Estado sempre teve e tem uma capacidade inimaginável de colocar as peças do tabuleiro de xadrez nos seus devidos lugares. Aliás, só ele tem esta capacidade. Só ele pode fazer o que está sendo feito agora, a saber: redistribuir os males de um sistema agonizante para toda a sociedade!
Estamos assistindo mais uma vez na história a uma crise que explicita, de uma vez por todas, como as estruturas políticas do Estado se comportam e se comportaram ao longo dos anos nos quais as pessoas que já haviam tomado nota desta crise (futura), e que estão no poder ainda hoje, se comportaram em relação aos seus efeitos práticos na vida das pessoas comuns: com indiferença. Nenhuma crise surge do nada! Deste ponto de vista, pode-se dizer que esta crise existe porque se decidiu, já nas esferas políticas, que ela tinha de existir.
Portanto, mais uma vez fica provado que as concessões que são feitas aos trabalhadores são cogitadas antes mesmo de a situação tornar-se catastrófica! Ou seja, as concessões se concretizam apenas quando não há outra saída. Quero insistir em chamar a atenção para o poder e o papel do Estado neste contexto. Está provado que é ele que mantém a ordem das coisas como estão e como elas devem ficar. Então aquele papo dos incautos, de que o Estado não tem poder para resolver os problemas das pessoas, de todos, é pueril, digno de risos e boas gargalhadas! Não é isto que o tempo histórico atual está demonstrando, a idéia de que ele, o Estado, é ineficaz. Muito pelo contrário!
Quero compartilhar, fazendo o uso de outras palavras e argumentações, as angústias e aflições de Silvia. Quando as pessoas irão tomar nota de que é perfeitamente possível subjugar o Estado - ao mesmo tempo em que o obriga a cumprir o seu papel histórico, isto é, o de representar os interesses das pessoas e suas necessidades - à toda sociedade? Em vez de deixarmos este ente salvar os Bancos e seus respectivos capitais, demonstrando toda a sua força e potência, vamos canalizar este poder real em favor da dignidade humana!
Wadson Calasans - 06/04/2009
Bom, num contexto no qual falar em ideologias é quase que um crime; no qual aprofundar debates sobre os rumos que alguns poucos seres humanos impõem à maioria da humanidade é uma coisa chata; falar de miséria e pobreza é coisa de ‘’comunista de bar’’ - enfim, teríamos muitos exemplos para serem dados -, a palavra concessão, surge, neste contexto atual, para mais uma vez resolver um problema que é crônico à sociedade capitalista: a contradição!
Foi assim na segunda metade do século XIX, mais precisamente a partir de 1870, quando o capitalismo se viu forçado, numa situação-limite, gerada naquela década, a ter de forjar uma guerra no início do século XX, matando conseqüentemente milhões de seres humanos em nome da ‘’expansão e ascensão’’ das nações. Foi assim em 1929, quando mais uma vez, milhões de seres humanos foram reduzidos à meros freqüentadores de lixões. Foi assim também nas décadas de 1970 e 1980, quando as recessões econômicas mais uma vez bateram na porta da sociedade do consumo; e o que aconteceu? Milhões de trabalhadores se transformaram em catadores de papelão, latinhas etc.
Mas as concessões foram feitas! E na brincadeira do ato engraçado (de conceder) dos senhores das indústrias, do capital monopolista, fomos nos acomodando! Mas de tudo isto que até agora foi exposto, uma coisa é certa (pelo menos para nós!): o Estado sempre teve e tem uma capacidade inimaginável de colocar as peças do tabuleiro de xadrez nos seus devidos lugares. Aliás, só ele tem esta capacidade. Só ele pode fazer o que está sendo feito agora, a saber: redistribuir os males de um sistema agonizante para toda a sociedade!
Estamos assistindo mais uma vez na história a uma crise que explicita, de uma vez por todas, como as estruturas políticas do Estado se comportam e se comportaram ao longo dos anos nos quais as pessoas que já haviam tomado nota desta crise (futura), e que estão no poder ainda hoje, se comportaram em relação aos seus efeitos práticos na vida das pessoas comuns: com indiferença. Nenhuma crise surge do nada! Deste ponto de vista, pode-se dizer que esta crise existe porque se decidiu, já nas esferas políticas, que ela tinha de existir.
Portanto, mais uma vez fica provado que as concessões que são feitas aos trabalhadores são cogitadas antes mesmo de a situação tornar-se catastrófica! Ou seja, as concessões se concretizam apenas quando não há outra saída. Quero insistir em chamar a atenção para o poder e o papel do Estado neste contexto. Está provado que é ele que mantém a ordem das coisas como estão e como elas devem ficar. Então aquele papo dos incautos, de que o Estado não tem poder para resolver os problemas das pessoas, de todos, é pueril, digno de risos e boas gargalhadas! Não é isto que o tempo histórico atual está demonstrando, a idéia de que ele, o Estado, é ineficaz. Muito pelo contrário!
Quero compartilhar, fazendo o uso de outras palavras e argumentações, as angústias e aflições de Silvia. Quando as pessoas irão tomar nota de que é perfeitamente possível subjugar o Estado - ao mesmo tempo em que o obriga a cumprir o seu papel histórico, isto é, o de representar os interesses das pessoas e suas necessidades - à toda sociedade? Em vez de deixarmos este ente salvar os Bancos e seus respectivos capitais, demonstrando toda a sua força e potência, vamos canalizar este poder real em favor da dignidade humana!
Wadson Calasans - 06/04/2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
"O ser do mundo hoje é o dinheiro, mas o dinheiro em estado puro" Milton Santos
Até quando assistiremos aos mesmos filmes na história deste mundo? É claro que mudam alguns personagens, os tempos e certos elementos, mas a trama, em sua essência, é praticamente a mesma. Estamos nos referindo aos diversos momentos de crise do modo de produção, ou como preferimos, modo de vida capitalista, ao longo dos processos históricos. Achamos até hilário quando se fala nesses momentos de crise, pois sempre se referem à crise no sistema econômico, como se fossem situações passageiras.
Representantes de alguns países se reúnem, presidentes de bancos, de empresas diversas, representantes de instituições internacionais e discutem o que deve ser feito para resolver ou amenizar a situação de crise. Bilhões em dinheiro são mobilizados, pelos Estados, para socorrer empresários, medidas são tomadas nos países no intuito de controlar a situação de crise no sistema financeiro. O mais intrigante é que o cotidiano vivido pelas pessoas desaparece dos discursos. Os debates são apenas acerca de como salvar a economia em colapso. Não importa quais medidas deverão ser tomadas, desde que consigam assegurar a permanência das coisas tais como estão. Pode até ser que, em algum momento, haja concessões para as populações dos mais diversos lugares. Concessões que visem controlar certas situações de alguns mercados e que depois ainda podem ser vistos como boas ações feitas pelos Estados.
Mas como podem ser passageiras as crises se, permanentemente, existem bilhões (sim, bilhões!) de pessoas no mundo que passam por diversos – e quase sempre concomitantes – agravos materiais e imateriais também (por diversas razões)??? Nesse sentido, consideramos que não há crise passageira. A crise é a própria forma de organização desta sociedade, sob muitos aspectos, o que por si, implica contradições que geram grande parte das mazelas sociais que conhecemos. E isto não é novidade. Aliás, parece até que é algo naturalizado, como se fosse uma fatalidade e uma sina vivermos assim. Como alguém pode pensar que existem momentos de bonança, de abastança, neste mundo, se não é para todos? Alguns podem dizer que esta fala é piegas, panfletária, ou que é fora da realidade...já ouvimos isto em diversas ocasiões. Mas pouco nos importa. Estamos expressando pensamentos e sentimentos humanos. Enquanto sujeitos que somos, refletimos sobre as nossas experiências cotidianas e as relações disto com as outras escalas, que não só a local.
Contudo, enquanto houver quem acredite que é possível um outro modo de organizar as sociedades, um modo que não tenha como pressuposto pessoas com fome - pessoas sem fome, pessoas com teto - pessoas sem teto, pessoas que estudam – pessoas que não estudam, pessoas com muito e outras com pouco ou nada...enquanto houver quem crê em outras possibilidades, poderá tornar-se realidade.
***
Silvia Bochicchio - 02/04/2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
ACELERAÇÃO À MODA BRASILEIRA - Um tema para reflexão nos cinco séculos de Brasil
A época atualmente vivida pelo mundo pode apropriadamente ser chamada de aceleração contemporânea. Ela permite pensar que se suprimem distâncias e intervalos e que as idéias de duração e seqüência estão substituídas pelas de instante e efemeridade.
Há quem veja nesse aumento exponencial de todos os ritmos uma conseqüência apenas do progresso técnico. A verdade, porém, é que a causa dessa mudança brutal na percepção do tempo e do espaço não está na possibilidade teórica e prática de tornar efetivas velocidades até agora insuspeitadas, mas se encontra nas forças econômicas que, em seu exclusivo benefício, impõem um relógio à humanidade como um todo. Isso é obtido através do domínio inconteste do dinheiro e com a ajuda de uma informação enviezada, que justifica e alimenta as novas modalidades de dominação.
Por isso, a aceleração contemporânea não apenas aumenta a desigualdade entre países, povos e pessoas, como leva a uma confusão dos espíritos, uma espécie de atordoamento dos sentidos. A época se apresenta como algo de amedrontar e ao mesmo tempo como uma fatalidade insondável, levando muitos à conformidade e outros ao desespero, enquanto outros tantos buscam ardentemente compreender o mundo em que vivemos para melhor se situar em face do presente e do futuro.
É um tempo de paradoxos, isto é, de contradições em estado puro, todavia hoje perceptíveis porque a própria vida acaba por ensinar o que é ideologia e o que não é, na produção da história. A tomada de consciência é uma questão de tempo. A grande causa dessa mutação filosófica está na forma como nos inserimos no mundo do trabalho e como podemos avaliar os resultados.
E o Brasil?
Os nossos quinhentos anos são iguais aos de outros países, porque a aventura iniciada em 1500 marca a primeira grande abertura jamais conhecida em todos os tempos pela história. É a primeira vez que um continente conhece tal combinação de novidades, a começar pela mistura de povos de origens diferentes, chegados a uma nova terra para exercer de forma pioneira atividades inéditas. O norte buscado, pelas contingências mesmas da aventura, será constituído pelo amálgama de europeísmo, cristianismo e internacionalismos, todos mais ou menos falsificados.
Esse Brasil europeu já surge disposto a olhar para os outros e esta será uma das marcas (profundas) de sua trajetória nestes cinco séculos. pode-se pensar que, desse modo, aqui se constitui uma sociedade embriagada pela idéia fixa de a todo custo imitar a modernidade alheia. Mas tal sociedade misturada - pela fermentação clandestina de sua maioria - é também capaz de ir constituindo, dentro de casa, o que será o seu corpo e a sua alma, no espelho da terra. E este será, afinal, sua âncora definitiva.
Abertura sem limites e construção autêntica de um povo são as duas pontas do eterno dilema brasileiro. A primeira interessa sobretudo aos senhores da terra e dos homens, enquanto a segunda constitui, para o grosso da população, o fundamento de sua identidade. Aliás, o trabalho de todos tem essas duas caras. E, como o trabalho hegemônico é comandado por lógicas excêntricas, as manifestações de fidelidade à terra surgem e se desenvolvem como resistência e a cultura é a sua linguagem, cuja força, aliás, apenas se tem revelado plenamente nos últimos anos.
Esse pode ser um tema para reflexão, quando se comemoram cinco séculos de Brasil, levando a uma reavaliação das perspectivas trazidas com o que podemos chamar de aceleração brasileira. Esta, felizmente, não é só o que parece, isto é, a submissão aos ditames da modernidade à moda internacional, porque também constitui a vontade de criar, aqui mesmo, uma modernidade brasileira, com a prevalência dos valores culturais da maioria da população. (Milton Santos - baiano - era professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor de A Natureza do Espaço, Por Uma Outra Globalização, entre outros. Transcrevemos aqui, o seu artigo publicado na Caros Amigos, ano IV - número 37 - abril de 2000).
Wadson calasans - 18/03/2009
Há quem veja nesse aumento exponencial de todos os ritmos uma conseqüência apenas do progresso técnico. A verdade, porém, é que a causa dessa mudança brutal na percepção do tempo e do espaço não está na possibilidade teórica e prática de tornar efetivas velocidades até agora insuspeitadas, mas se encontra nas forças econômicas que, em seu exclusivo benefício, impõem um relógio à humanidade como um todo. Isso é obtido através do domínio inconteste do dinheiro e com a ajuda de uma informação enviezada, que justifica e alimenta as novas modalidades de dominação.
Por isso, a aceleração contemporânea não apenas aumenta a desigualdade entre países, povos e pessoas, como leva a uma confusão dos espíritos, uma espécie de atordoamento dos sentidos. A época se apresenta como algo de amedrontar e ao mesmo tempo como uma fatalidade insondável, levando muitos à conformidade e outros ao desespero, enquanto outros tantos buscam ardentemente compreender o mundo em que vivemos para melhor se situar em face do presente e do futuro.
É um tempo de paradoxos, isto é, de contradições em estado puro, todavia hoje perceptíveis porque a própria vida acaba por ensinar o que é ideologia e o que não é, na produção da história. A tomada de consciência é uma questão de tempo. A grande causa dessa mutação filosófica está na forma como nos inserimos no mundo do trabalho e como podemos avaliar os resultados.
E o Brasil?
Os nossos quinhentos anos são iguais aos de outros países, porque a aventura iniciada em 1500 marca a primeira grande abertura jamais conhecida em todos os tempos pela história. É a primeira vez que um continente conhece tal combinação de novidades, a começar pela mistura de povos de origens diferentes, chegados a uma nova terra para exercer de forma pioneira atividades inéditas. O norte buscado, pelas contingências mesmas da aventura, será constituído pelo amálgama de europeísmo, cristianismo e internacionalismos, todos mais ou menos falsificados.
Esse Brasil europeu já surge disposto a olhar para os outros e esta será uma das marcas (profundas) de sua trajetória nestes cinco séculos. pode-se pensar que, desse modo, aqui se constitui uma sociedade embriagada pela idéia fixa de a todo custo imitar a modernidade alheia. Mas tal sociedade misturada - pela fermentação clandestina de sua maioria - é também capaz de ir constituindo, dentro de casa, o que será o seu corpo e a sua alma, no espelho da terra. E este será, afinal, sua âncora definitiva.
Abertura sem limites e construção autêntica de um povo são as duas pontas do eterno dilema brasileiro. A primeira interessa sobretudo aos senhores da terra e dos homens, enquanto a segunda constitui, para o grosso da população, o fundamento de sua identidade. Aliás, o trabalho de todos tem essas duas caras. E, como o trabalho hegemônico é comandado por lógicas excêntricas, as manifestações de fidelidade à terra surgem e se desenvolvem como resistência e a cultura é a sua linguagem, cuja força, aliás, apenas se tem revelado plenamente nos últimos anos.
Esse pode ser um tema para reflexão, quando se comemoram cinco séculos de Brasil, levando a uma reavaliação das perspectivas trazidas com o que podemos chamar de aceleração brasileira. Esta, felizmente, não é só o que parece, isto é, a submissão aos ditames da modernidade à moda internacional, porque também constitui a vontade de criar, aqui mesmo, uma modernidade brasileira, com a prevalência dos valores culturais da maioria da população. (Milton Santos - baiano - era professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, autor de A Natureza do Espaço, Por Uma Outra Globalização, entre outros. Transcrevemos aqui, o seu artigo publicado na Caros Amigos, ano IV - número 37 - abril de 2000).
Wadson calasans - 18/03/2009
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
POR UMA CARNAVALIZAÇÃO DO MUNDO E DAS ‘’COISAS’’
Cá estamos nós, para falarmos mais uma vez de uma coisa que talvez pouco interessa às ‘’pessoas’’: o Carnaval de Salvador. Utilizamos o termo ‘’pouco’’ porque do ponto de vista que desejamos falar desta festa maravilhosa, incomoda, ainda que seja em medida insignificante atualmente, algumas pessoas que todo ano ‘’selecionam’’ elementos importantes do Carnaval, para fazer crer que as contradições astronômicas que há na festa, a miséria, a imposição simbólica de um certo modelo a ser seguido, enfim, todas estas coisas, podem ser ‘’carnavalizadas’’, e no fim das contas, é realmente isto que importa e apenas isto!
E se incomoda, é natural que interesse pouco! Acontece que quando deixamos de chamar a atenção (ou quando só o fazemos em questões pontuais) para dinâmicas sociais que nos arrastam, sem haver alguma reflexão de escolha de um outro tipo de mundo, algo está errado. O que é o Carnaval de Salvador hoje? Não vou afirmar ou reduzir a resposta ao mercado, dizendo que a festa pertence incondicionalmente ao mercado – muito embora isto seja incorporado, pelos que estão confortavelmente no poder, como uma força motriz da festa, uma condição para que esta exista!
O mercado é feito de pessoas! São grupos humanos se relacionando, pensando, decidindo etc. O Carnaval é feito de e por pessoas também – se é que ainda lembramos disto! E se há seres humanos, há sem dúvida cultura, tradição, história etc. Há também aquilo que chamamos de ‘’Cultura Popular’’. Acontece que chegamos num momento histórico no qual a idéia de Cultura Popular foi, e ainda está sendo, ‘’espremida’’ e amordaçada por um bloco histórico de poder que decidiu selecionar – muitos preferem o eufemismo do termo ‘’socializar’’ – o que as pessoas devem ou não incorporar como sendo formas legítimas da festa carnavalesca.
Por isso, o modelo da fama, do sucesso respaldado pela mídia – um importante grupo detentor das principais formas de mediação entre os diversos grupos sociais –, das músicas mais tocadas e veiculadas pelos diversos meios de comunicação, o modelo dos objetos que precisam ser adquiridos para ‘’curtir o Carnaval’’ (porque sem os quais a ‘’minha’’ realização na festa seria um ‘’fiasco’’), enfim, tudo isto parece ter mais importância do que simplesmente ‘’transgredir’’ as regras sociais no período momesco – aliás, uma marca histórica do Carnaval, da idéia de carnavalizar o mundo e suas coisas.
Wadson Calasans, 16/02/2009.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Reflexões sobre a Cegueira!
Há poucos dias, fui ao cinema para assistir o filme Ensaio Sobre a Cegueira, uma adaptação da obra de José Saramago. O filme causou-me, evidentemente, uma série de reflexões; as mais diversas. E algumas das minhas reflexões tomavam o caminho de pensar a ''cegueira'' como uma espécie de ''véu'', sob o qual nós agimos, pensamos, e acima de tudo, existimos. A cegueira seria como um caleidoscópio; só que no caso de alguns seres humanos, as figuras geradas por esse brinquedo cilíndrico são ''selecionadas'' e obstinadamente tidas como sendo as únicas possibilidades de imagens da realidade - a despeito de não compreendê-las muito bem.
Levando a discussão ao nível propriamente conceitual, tomando, por exemplo, cegueira como um conceito, totalmente inserido numa determinada visão de mundo, como pensar a cegueira que vivemos e praticamos no Brasil? O que é e como é a ''cegueira brasileira''? O que são as relações de poder e como são concebidas na cegueira brasileira? O ''modismo'' e a naturalização, imagens geradas pelo intrincado jogo feito pelo caleidoscópio (a realidade), é uma expressão do mundo insistentemente projetada por aqueles que não conseguem perceber muito bem quão infeccionados estão com a doença.
A naturalização é sem dúvida uma das projeções mais perigosas! É ''lugar-comum'' o fato de certos grupos humanos exercerem certos poderes sobre outros grupos humanos; já é natural, portanto é piegas ficarmos o tempo todo falando sobre isto! Não se quer saber que os poderes de certos grupos humanos sobre outros grupos humanos, em determinados períodos históricos, se impõem sobre ambos os grupos, tanto ao grupo que exerce uma certa dominação quanto ao grupo sobre o qual tal dominação é exercida. Esse (s) poder (es) adquirem uma condição de potências absolutamente estranhas aos grupos humanos envolvidos nas situações de dominação e relações de forças. O que fica claro é que não conseguimos ver - por conta da cegueira, da proliferação da doença - que os indivíduos se fazem uns aos outros, tanto física quanto culturalmente. Enquanto permitirmos que grupos humanos fixem a imagem do mundo, ao mesmo tempo em que estimulam conscientemente a cegueira por conta de tal ação, não teremos um terreno favorável para produzirmos, de fato, um antídoto que seja realmente eficaz: neste caso, a democracia e a solidariedade.
Wadson Calasans - 22/09/2008
Levando a discussão ao nível propriamente conceitual, tomando, por exemplo, cegueira como um conceito, totalmente inserido numa determinada visão de mundo, como pensar a cegueira que vivemos e praticamos no Brasil? O que é e como é a ''cegueira brasileira''? O que são as relações de poder e como são concebidas na cegueira brasileira? O ''modismo'' e a naturalização, imagens geradas pelo intrincado jogo feito pelo caleidoscópio (a realidade), é uma expressão do mundo insistentemente projetada por aqueles que não conseguem perceber muito bem quão infeccionados estão com a doença.
A naturalização é sem dúvida uma das projeções mais perigosas! É ''lugar-comum'' o fato de certos grupos humanos exercerem certos poderes sobre outros grupos humanos; já é natural, portanto é piegas ficarmos o tempo todo falando sobre isto! Não se quer saber que os poderes de certos grupos humanos sobre outros grupos humanos, em determinados períodos históricos, se impõem sobre ambos os grupos, tanto ao grupo que exerce uma certa dominação quanto ao grupo sobre o qual tal dominação é exercida. Esse (s) poder (es) adquirem uma condição de potências absolutamente estranhas aos grupos humanos envolvidos nas situações de dominação e relações de forças. O que fica claro é que não conseguimos ver - por conta da cegueira, da proliferação da doença - que os indivíduos se fazem uns aos outros, tanto física quanto culturalmente. Enquanto permitirmos que grupos humanos fixem a imagem do mundo, ao mesmo tempo em que estimulam conscientemente a cegueira por conta de tal ação, não teremos um terreno favorável para produzirmos, de fato, um antídoto que seja realmente eficaz: neste caso, a democracia e a solidariedade.
Wadson Calasans - 22/09/2008
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Lembrete!
Olá pessoal!
Por favor, não esqueçam de fazer comentários (quaisquer que sejam!) sobre os textos postados no blog! É muito importante para uma melhora futura do blog, em todos os aspectos! Para as pessoas que não sabem, é só visitar a parte escrita COMENTÁRIOS!
Um grande abraço,
Wadson calasans - 03/09/2008
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Um grande abraço,
Wadson calasans - 03/09/2008
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